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O buraco negro na camada da cultura.

Quando descobriu-se o imenso buraco na camada de Ozônio, o mundo inteiro voltou-se para a auto-proteção e travou uma luta que envolveu autoridades e empresários de todo mundo na intenção de combater e minimizar os efeitos resultantes da emissão de raios prejudiciais a saúde humana. Oficialmente ainda não se anunciou a descoberta do buraco na camada da cultura, mas ele existe. Apesar de tê-lo batizado como buraco negro, uma referência ao perigo que representa a memória cultural do Brasil, trata-se de um imenso espaço em branco na nossa cultura. Em lugar de raios ultravioletas, o céu da música brasileira está sendo bombardeado por raios inúteis de uma cultura comercial que produz tudo que não leva nada, apenas faz apologia ao sexo livre, liberação torta e devassidão. Voltemos aos anos 90, onde ainda tínhamos uma cultura intacta, com boas produções, excelentes letras e arranjos bem produzidos. Na época não se precisa de DVDs para lembrar das canções, elas eram simplesmente inesquecíveis. Hoje se produz uma música com letras de forte apelo sexual onde as mulheres são tratadas como objeto de prazer, exaltando o exibicionismo, sexo, consumo de álcool e muita, muita safadeza. Palavras como "cachorra", "periguetes", "safada", são comuns e todos dançam e expõem os corpos dançando num frenesi sexual. Cultura devassa. Cultura mercantil, podre. As composições mais recatadas são pobres, nada falam a não ser na mesmice, os ritmos e acordes são copiados e a qualidade deixa muito a desejar. Obviamente existe a resistência, aqueles que são exigentes e que respeitam o público e memória cultural. Artistas que sabem da responsabilidade de marcar uma época e construir a memória, deixando canções belíssimas e inesquecíveis. Gostoso ouvir as moças Paula Fernandes, Maria Rita, Maria Gadú e Ana Carolina, artistas de nível altíssimo e de qualidade cultural incontestável. Grandes nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho, João Gilberto, Vinicius de Moraes, Djavan, Raimundo Fagner, Alcione, Fábio Junior, Belchior, Osvaldo Montenegro, Milton Nascimento, Emílio Santiago, Agnaldo Timóteo, Zélia Duncan enfim, me perderia citando nomes. Infelizmente a cultura do comércio, da ambição, do capitalismo selvagem e da qualidade zero. Entre quatro paredes decide-se "vende", vamos lançar que vai render ganhos altíssimos, vai tocar em todas as rádios, estar nas emissoras, vai bombar. E rende, e bomba e é "bomba" mesmo. A lavagem cerebral levou a nocaute a produção qualitativa e a corrida pela liberdade sexual, social e cultural, afogou a memória musical, trazendo a tona o lixo que ouvimos hoje todos os dias. Obviamente salvam-se em condição rara, algo que seja audível e que fuja das características do apelo sexual, da indução a liberdade e o consumo de bebidas na vida sedentária das baladas e bailes, mas a parcela é mínima e a invasão permitida é forte. São jovens se expondo, dançando rituais de acasalamento publicamente, exibindo os corpos e enterrando a vergonha enquanto ouvem os hits que os excitam a "tirar a calçinha", "por a mão na bundinha", "todo enfiado" e por aí vai. Estas são as publicáveis aqui. Esta é a cultura que oferecemos. Esta é a cultura que toca, que ofertam aos nossos filhos, sobrinhos, netos... Isto é o melhor que se consegue fazer? Este é o melhor que podem oferecer? Então nos mostrem o pior, talvez seja melhor que o melhor que oferecem.

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